Rio de Janeiro/RJ – Brasil
7 de outubro de 2029.
16 horas e 23 minutos.
Um casal anda de mãos dadas em um bosque. Não há um motivo específico para fazerem isso, eles simplesmente o fazem. Talvez se amem.
Uma menina de oito anos de idade corre na direção de uma vendedora de pipocas em um parque. Ela preferiria um cachorro-quente, mas só tinha pipoca.
Dois times de um esporte importante se enfrentam em um jogo importante de um campeonato importante. O time visitante está ganhando.
Um estudioso acaba de chegar a uma conclusão inédita sobre um assunto complicado e de maneira inovadora, após anos de estudo.
Faz calor.
Eis que, sem aviso, um grande asteroide ilumina o céu carioca e se choca contra a capital fluminense. O objeto espacial de proporções inimagináveis não deixa sobreviventes. Não só no Rio de Janeiro como no mundo. Pelo menos, nenhum sobrevivente humano... mas isso já é outra história.
De que serviram todas as preocupações? De que adiantaram todos os anos passados estudando questões irrelevantes? O único modo de se atingir a imortalidade é através de nosso legado, mas não há legado se não há quem se recorde dele. Não há legado. A religião não salvou ninguém. Os bispos, os padres e o Papa estão na mesma situação que os estupradores, os pedófilos e os assassinos. Estão compartilhando da mesma morte. A música não foi capaz de impedir a tragédia. Não há separação de gênero musical na hora final.
A vida é irônica. Vive-se oitenta anos se esforçando e batalhando, dia após dia, para sobreviver até a hora de morrer. Para se ter dinheiro, se ter uma moradia, se ter amigos com quem passar o tempo que se resta. Mas a morte olha com escárnio para todo esse esforço e essa batalha. Ela não diferencia o rico do pobre, o limpo do sujo, o belo do feio, o velho do novo. Não há diferenças entre as pessoas sob o olhar paciente da morte.
E na hora final talvez se descompliquem as complicações do mundo. Talvez se perceba, numa fração de segundo antes da consciência se perder, qual era a grande piada pregada pelo universo sobre nós. Temos data de validade, e a cada segundo passado ela está mais perto de expirar.
Viva, não apenas sobreviva. Cometa erros, faça o que tem vontade, perca tempo. O tempo perdido que agradou quem o perdeu não foi perdido. Você está em um tempo único na história, um tempo tão raro que me é difícil calcular essa possibilidade sem uma calculadora. Explico: em todos os 14 Bilhões de anos do universo, esses são os únicos poucos que contarão com a sua existência. Nesse momento, o universo existe apenas para você e para os outros que estão vivos. Aproveite-o. Quando sua vez acabar, você não tem o direito de voltar para o começo da fila.
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